terça-feira, 29 de dezembro de 2015

CONHEÇO O MEU LUGAR



IMPRESSÕES & IMPRECAÇÕES
 SOBRE A SECA DO QUINZE
1915 – 2015 – O que mudou e o que ainda permanece
ao longo desses cem anos de história

Por: Arievaldo Vianna



¨...Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!
Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!
Você sabe bem: Conheço o meu lugar!”
(Conheço meu lugar – Belchior)

Em geral, a imprensa do Sudeste ainda teima em apresentar o Nordeste como a região mais atrasada e vulnerável do país. A seca de 2015 tem sido usada escandalosamente com a finalidade de manter essa visão estereotipada e preconceituosa. O Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, acaba de produzir uma série de reportagens intitulada “O quinze – Travessia” onde a tônica principal parece ser a perpetuação dessa mentira, apresentando um Nordeste supostamente tão miserável quanto o de cem anos atrás*.
Não dá para assistir inverdades desse tipo passivamente, sem esboçar uma reação de protesto. Eu que nasci e me criei no Sertão Central do Ceará posso falar com propriedade, pois como diria Belchior, conheço o meu lugar! Não apenas o meu chão, mas os relatos verídicos de meus antepassados e a literatura deixada pelos escritores contemporâneos daquela geração.
Rodolfo Teófilo, testemunha ocular das piores secas registradas na segunda metade do século XIX e início do Século XX, dentre as quais as terríveis estiagens de 1877-79 e a famigerada Seca do Quinze (1915), foi um dos escritores que mais se ocupou desse tema em sua obra literária, com destaque para A fome (1890), Secas do Ceará – Segunda metade do século XIX (1901), Cenas e Tipos (1919) e Seca de 1915 (publicado em 1922). É certo que nenhuma dessas obras alcançou a grande projeção do romance O Quinze, de Rachel de Queiróz, escritora que bem cedo mudou-se para a região Sudeste do país, onde conviveu com os maiores intelectuais de seu tempo e colaborou nos principais meios de comunicação do Rio de Janeiro, antiga Capital Federal.

Abstendo-me de comparar ou discutir os méritos literários de Rodolfo Teófilo e Rachel de Queiróz, quero valer-me da obra de ambos para dar início a um modesto estudo sobre a Seca de 2015, que venho acompanhando com singular interesse desde o início, uma vez que a estiagem vem se prolongando desde 2013. Nos últimos dois anos percorri boa parte do Nordeste e visitei os cinco estados mais afetados pelo flagelo da seca, a saber Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Neste ano de 2015, a serviço do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), tive a oportunidade percorrer longas extensões do nosso Semi-Árido e observar os efeitos causados pela prolongada estiagem. Também visitei muitas regiões ocupado em divulgar o meu livro mais recente, a biografia do poeta paraibano Leandro Gomes de Barros, autor de versos como estes:

Seca as terras as folhas caem,
Morre o gado sai o povo,
O vento varre a campina,
Rebenta a seca de novo;
Cinco, seis mil emigrantes
Flagelados retirantes
Vagam mendigando o pão,
Acabam-se os animais
Ficando limpo os currais
Onde houve a criação.
(...)

E a fome obedecendo
A sentença foi cumprida
Descarregando lhe o gládio
Tirou-lhe de um golpe a vida
Não olhou o seu estado
Deixando desamparado
Ao pé de si um filinho,
Dizendo já existisses
Porque da terra saísses
Volta ao mesmo caminho.

Vê-se uma mãe cadavérica
Que já não pode falar,
Estreitando o filho ao peito
Sem o poder consolar
Lança-lhe um olhar materno
Soluça implora ao Eterno
Invoca da Virgem o nome
Ela débil triste e louca
Apenas beija-lhe a boca
E ambos morrem de fome.

(A seca do Ceará – Leandro Gomes de Barros)

Basta ter um pouco de informação ou percorrer alguns quilômetros do Ceará de hoje para saber que a situação é completamente diferente desse quadro de miséria retratado pelo grande poeta paraibano e por nossa conterrânea Rachel de Queiróz. Entretanto, como dissemos anteriormente, parte da mídia parece (eu disse “parece”) desconhecer as mudanças ocorridas ao longo do tempo.

Atravessei o Piauí de Teresina a Pedro II, passando por Campo Maior, Piripiri e outras cidades, rodei o Ceará em quase toda a sua extensão, percorri a Paraíba de Cajazeiras a João Pessoa, passando por Sousa, Pombal, Patos, Campina Grande e outros municípios; percorri o Rio Grande do Norte de ônibus, de Natal a Mossoró, observando a paisagem e avaliando os efeitos da seca. Em suma, meu olhar atento de sertanejo, nascido e criado por essas bandas, filho e neto de vaqueiros e agricultores, perscrutou uma realidade bem diferente dessa que a mídia insiste em perpetuar por século seculorum.
Em todas as paradas que eu fazia, viajando de ônibus ou de carro próprio, procurava conversar com pessoas mais velhas, nativas daquele chão, para sondar-lhes as impressões sobre os efeitos da seca. Quase todos eram unânimes em afirmar que apesar da extensão do problema, não se tem notícia de uma única pessoa que tenha morrido de fome, como acontecia até meados do século passado. Deparei muitas vezes com pessoas alheias ao fenômeno, principalmente os jovens, mais preocupados com motocicletas e com os mimos da moderna tecnologia. O sertão desertificado povoa-se de milhares de antenas parabólicas e de torres de telefonia, mesmo nos recantos mais distantes.
Os mais afetados continuam sendo os rebanhos (bovino e ovino, principalmente), já que os seres humanos estão garantidos por diversos programas assistenciais, aposentaria rural, perfuração de poços profundos, instalação de adutoras e até mesmo distribuição gratuita de cestas básicas e garrafões de água mineral! A prova disso é que o êxodo rural não se acentuou nem se viu levas de retirantes nas estradas como ocorreu nas secas de 1915, 1932 e 1958, por exemplo. Quando menino, morando em Canindé-CE, vi o comércio ser saqueado por agricultores famintos, em plena década de 1980, a exemplo do que ocorreria em muitas outras cidades. Na seca de 2015, considerada a pior estiagem dos últimos cem anos, apesar da gravidade do problema, não se tem notícias de saque ao comércio em nenhum município nordestino.
Entretanto, a Rede Globo de Televisão parece desconhecer inteiramente a diferença entre a tragédia de 1915 e esta seca registrada cem anos depois. Pelo menos foi a impressão que tive depois de assistir à primeira de uma série de reportagens intitulada “O Quinze – A travessia”, supostamente baseada na obra de Rachel de Queiróz, onde a intenção mal disfarçada é passar a falsa ideia de que os sertões cearenses continuam tão pobres e vulneráveis quanto há cem anos.

ELITE SERTANEJA - Rachel de Queiróz na infância, com a mãe e o irmão Roberto.
Na versão do Jornal Nacional, a escritora aparece como uma menina magrela, de pés descalços.


Para começo de conversa, as cenas de abertura da reportagem acontecem na casa da Fazenda Não-me-deixes, construída em 1954, quando a escritora,  já casada e nacionalmente famosa, resolveu fazer uma casa de veraneio na propriedade herdada de seus pais, no município de Quixadá. O repórter, por desinformação ou pura má fé, parece desconhecer que Rachel pertencia à fina flor da elite sertaneja, que nasceu em Fortaleza em 1910 (em berço de ouro) e que passou parte de sua infância na fazenda Junco, que pertencia ao seu pai, Daniel de Queiróz, ou na “casa de 85 portas” sede da Fazenda Califórnia, propriedade de seus avós. Bastaria uma breve consulta ao livro Tantos anos, biografia de Rachel escrita em parceria com sua irmã mais nova Maria Luíza de Queiróz, para reconduzir a matéria aos trilhos da história.
Depois de retratar a escritora como uma criança magrela, de pés de descalços, a reportagem global, numa inadmissível agressão à verdade histórica, afirma que foi ali, na casa da Fazenda Não-me-deixes, fitando através daquelas janelas ora pintadas de azul marinho, que ela teria adquirido subsídios e buscado inspiração para escrever o seu romance. E outras aberrações vão se sucedendo ao longo da matéria. Preocupado em mostrar o sertão como o recanto mais atrasado do país, o Jornal Nacional não mostra uma única vez os milhares de poços profundos perfurados, os açudes construídos nos últimos cem anos, as adutoras, os carros-pipas, tampouco as cisternas construídas em quase todas as moradias rurais nos últimos dez anos. Pelo menos no primeiro capítulo da série, não houve uma única referência a Orós, Lima Campos e Castanhão, açudes que se não foram a total redenção, minimizaram sobremodo os efeitos devastadores da seca. Pelo contrário, as cenas mais marcantes mostram pessoas idosas raspando a terra seca com enxadas, coisa que um sertanejo só faria, na sua labuta diária, se estivesse completamente desprovido de suas faculdades mentais. Aliás, eu acho que nem doido anda raspando terra seca de enxada, num momento em que apanhar uma virose é a coisa mais trivial deste mundo. Basta um pouco de poeira quente nas narinas.
Em Cenas e Tipos, Rodolfo Teófilo consegue ser magistral em duas crônicas que abordam a problemática da seca. Em “O bebedouro”, uma crônica com sabor de conto, o escritor baiano, naturalizado cearense desde a infância, retrata o sofrimento de uma chusma de sertanejos tentando abrir, heroicamente, uma cacimba no leito do rio seco para dar de beber a um rebanho bovino que muge esquelético, lambendo a terra molhada que é revirada por dezenas de pás e picaretas. No meio dessa azáfama, eis que surge um touro gigantesco, o Faísca, que jamais se deixara capturar, desmoralizando os maiores vaqueiros da região. O velho vaqueiro, ao reconhecer o fogoso bovino naquela rês esquelética que se aproxima do bebedouro, começa a verter lágrimas de tristeza e acaricia o pelo eriçado do pobre animal, que acaba chorando também. Há que se notar que os trabalhos de escavação da cacimba desenrolam-se da forma mais primitiva, sem nenhuma ajuda da tecnologia. Quando a escavação do bebedouro chega na piçarra sem que a água tenha minado, os homens desistem da perfuração do manancial, deixando o gado frustrado e frustrados eles próprios, combinam reiniciar a dura tarefa no dia seguinte, em outro local, na esperança de melhor sorte. A outra crônica que se destaca em Cenas e Tipos intitula-se “A imprevidência do cearense”, que de maneira realista e, de certo modo, com um leve tom de sarcasmo, mostra a falta de bom senso dos nossos sertanejos com relação a prevenção da seca. Durante a Guerra Civil Norte Americana, também conhecida como Guerra da Secessão (1861 - 1865), o Ceará tornou-se um dos maiores exportadores de algodão para florescente indústria têxtil da Inglaterra e de outras potências europeias. Fortaleza, uma cidade ainda pequena e acanhada na primeira metade do Século XIX experimentou considerável progresso com a chegada das libras esterlinas que passaram a movimentar o seu comércio desde então.
Os sertanejos, responsáveis pelo plantio e colheita do ouro branco, surpreendidos por tanta fartura, se excediam nos gastos desnecessários sem suspeitar que a seca em breve lhes bateria à porta trazendo consigo a miséria, a desolação e a peste. Vejamos o que escreveu Rodolfo Teófilo acerca desse episódio:

“Não se avalia a loucura dessa gente em gastos supérfluos. Comprava tudo que se lhe oferecia, sem regatear o preço. Alguns, no delírio do desperdício, lavavam os cavalos com cerveja inglesa, a única que havia, marca Bass, custando mil réis a garrafa, que era de louça.”

Na terrível seca de 1877-79 Rodolfo Teófilo, já estabelecido como farmacêutico em Fortaleza teve a curiosidade de visitar os campos de concentração dos flagelados da seca e deparou, para seu espanto, com muitos daqueles sertanejos que desperdiçavam as suas economias e banhavam cavalos com cerveja importada. Passado o “castigo” da seca, rapidamente esqueceram as suas sequelas e entregaram-se novamente ao vício perdulário. Segundo Rodolfo, além de banhar os cavalos, passaram também a aguar os salões onde dançavam os seus forrobodós. Eis a forma como o escritor registra esse acinte, no livro publicado em 1919:

“O cearense é incorrigível. A sua imprevidência chega à obcessão. (...) As pessoas que visitam o sertão dizem que o matuto desperdiça dinheiro às mãos cheias. O aluá desapareceu e foi substituído pela cerveja, que serve, para cumulo de desperdício, para aguar as casas em que se fazem festas.”

O que eu tenho presenciado, nas minhas andanças recentes pelo sertão, é o surgimento de uma geração de sertanejos obesos e indolentes, viciados em internet, comida enlatada, bandas de forró e outras drogas. Aliás, é um crime chamar essa música de forró, o termo mais adequado para defini-la seria FORRUIM. Bebe-se cachaça, cerveja e até uísque importado como nunca, quase ninguém trabalha e quando falam de crise é sempre usando a revista VEJA ou a Rede Globo como referências. Não é exagero afirmar que existem “sertanejos” de 20 ou 30 anos de idade que nunca pegaram no cabo de uma enxada! Um sertanejo de 65 anos, o Sr. Francisco, entrevistado pela reportagem do Jornal Nacional deu a senha:

“- Tô com 65 anos. Foi a pior seca que passei na minha vida. Foi Deus que mandou mesmo pra pessoa saber quem tem coragem de trabalhar”, diz Francisco.
JN: - Por que?
Francisco: - Só trabalha quem tem coragem, patrão.”

Num ato de heroísmo o velho sertanejo conduz diariamente uma carroça d’água, através de vários quilômetros, para matar a sede do seu pequeno rebanho bovino, que não quer ver morrer à míngua. Foi, sem dúvidas, o ponto mais interessante da reportagem.
Passei uns quinze dias deste final de ano numa casa de veraneio que construí no município de Madalena, às margens da rodovia que liga São José da Macaóca a Lagoa do Mato-Itatira. Num final de semana, por volta de meio dia, com o sol causticante e à pino, fui surpreendido por um comboio de caminhões adaptados para o transporte de gado, repletos de novilhos e garrotes magrelos, espremidos entre as grades da carroceria, vítimas da inclemência climática e da maldade de seus proprietários, sendo levados aos solavancos rumo à Serra do Machado. Indaguei de um sertanejo presente, ali mesmo no meu alpendre, se aquele gadinho estava sendo transportado para a serra em busca de clima melhor, pasto abundante e outros refrigérios.
- Que nada, respondeu o meu interlocutor. Estão sendo levados para a vaquejada de Lagoa do Mato!
Confesso que não contive a minha indignação ao saber que numa seca como essas, onde os bichos são os que mais sofrem com os rigores do clima, ainda se pratica um “esporte” desumano como essa tal vaquejada, que em nada se assemelha às festas de apartação do Ciclo do Couro, quando realmente havia um motivo para se vestir de couro dos pés a cabeça e arrebanhar o gado das soltas para os currais.
Logo após a passagem do comboio bovino, dezenas de motos, carros de luxo e camionetas Hi-Lux passaram rebocando uma parafernália eletrônica que o vulgo batizou de “paredões de som” e a farra comeu solta até a tarde do dia seguinte. Na segunda-feira de manhã, vi o mesmo gado, sofrido e maltratado, retornando para seus locais de origem. Certamente muitos deles tiveram pernas quebradas e foram sacrificados lá mesmo, para proveito dessas “vítimas da seca” que o Jornal Nacional vem apresentando de maneira tão comovida.

* VER ESSE LINK: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/12/um-seculo-depois-o-drama-da-seca-retratado-no-livro-o-quinze-se-repete.html




OBRAS CONSULTADAS

O QUINZE - Rachel de Queiróz
CENAS E TIPOS - Rodolfo Teófilo
A FOME - Rodolfo Teófilo
O QUINZE EM QUADRINHOS, adaptação de Shiko
A SECA DO CEARÁ - Leandro Gomes de Barros

TANTOS ANOS - Rachel de Queiróz e Maria Luíza de Queiróz.

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